sábado, 4 de agosto de 2012

O abraço do homem entregue

Um homem que beirava os 30 anos, o típico homem COMUM, se é que se pode definir alguém assim... Mas falo um pouco da forma, nem muito magro, nem gordo, com a barba por fazer, calça jeans surrada, a velha camiseta branca com a gola já não tão em forma... Ele sai de seu apartamento no centro da cidade a procura da vida.
A vida que ele queimou, que ele não viu acontecer. Não por ser obrigado a nada, ou estar preocupado demais com obrigações, simplesmente por não ter feito nada.

Na noite que antecede a saída do homem do apartamento, ele sonha com a possibilidade de encontrar alguém, seja esse alguém um amigo, uma namorada, uma futura esposa ou até um filho perdido por aí, que agora irá transformá-lo em outro.
Esse alguém não diz palavras, ou frases ou qualquer comunicação verbal, eles se entendem em outro nível, eles se conectam pelo olhar e passam a saber tudo um do outro, ao passo que seus movimentos passam a se parecer e o homem já não se sente mais só, ele agora é multiplicado pela companhia de um outro.

Esse homem multiplicado ganha uma nova visão, uma nova lei. Ele não obedece mais aquela velha rotina que esgotava seus músculos de tanto repetir movimentos sem a possibilidade de evoluir.
Ele agora sente os aromas da cidade em que vive, ele percebe em seu corpo uma energia jamais percebida antes que o permite caminhar pelas ruas com a cabeça erguida.
Esse novo homem agora ganha forças para se interessar por alguém, ele agora ama pessoas pelas ruas da cidade, ele ama pessoas que entregam pizza, ele ama pessoas que encontra no elevador, ele ama pessoas que varrem as ruas e ama pessoas que seguram portas de elevadores quando o avistam chegando.
Ele ama loiras altas com silicone nos seios e a bunda dura de tanto frequentar a academia, ele ama homens de terno preto falando ao celular enquanto caminham apressados, ele ama crianças com o nariz escorrendo que seguram a barra da saia da mãe implorando por colo.

Ele com esse amor maior que seu corpo sai pela rua e passa a abraçar pessoas, a todas elas, ele abraça sem interesse sexual ou de qualquer outra espécie, ele abraça, ele tem que abraçar para expressar esse amor...

Ele então abraça um homem que se prepara para o salto definitivo, o salto a busca da morte, no metrô, no horário de pico, no caos da cidade, ele abraça o homem.
O homem retribui o abraço sem se preocupar de onde vem aquilo, ele abraça de volta e chora e amolece o corpo. Ninguém repara nos dois.
O dois homens ali, abraçados transformam suas vidas.
Um diz obrigado, o outro esboça um sorriso ainda com lágrimas nos olhos.
 Caminham em direções opostas.
Ele acorda.


domingo, 17 de junho de 2012

Espelho


Uma canção muito especial que me toca muito por toda a beleza da homenagem...

terça-feira, 5 de junho de 2012

De quem sou eu

Lembrando de mim eu percebi que talvez eu seja especial.
Que talvez eu valha a pena.
Eu tinha esquecido de mim, de quem eu era, do meu sabor, do meu desejo, dos meus anseios.

Nessa lembrança eu resgatei lá de dentro um garotinho desse tamaniquinho de cabelo encaracolado, que sonhava com tudo e que podia tudo, porque não sabia de nada, ou talvez de tudo.
Eu lembrei que eu posso ser o que eu quiser, fazer o que eu quiser e morar no mundo que eu quiser.

Com um sorriso confiante de criança, que as vezes ainda surge no meu rosto, eu sinto que isso está em mim, e usando as palavras de um sábio malandro da música brasileira como inspiração eu canto: " eu sou assim, quem quiser gostar de mim.... eu sou assim"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

de manhã

Acordei e já não era tão cedo, com a claridade que entrava pela janela diretamente no meu rosto. Virei pro lado e estava sozinho na cama enorme banhada com o edredom vermelho. Meu cabelo amassado e meus olhos entre abertos pareciam não entender como podia estar sozinho.
Esperei um pouco fingindo estar dormindo torcendo pra que ela voltasse do banheiro. Nada.
Fiquei ainda esperando e inventando um café da manhã ou alguma desculpa pra estar sozinho.
Mas nada aconteceu.
Comecei a me sufocar na cama.
Então, me sentindo bem estranho, fui até o banheiro e quando senti o piso frio com meus pés ainda quentes, me deparei com as marcas de batom escritas por ela em toda a extensão do meu banheiro.
Ela não teve dó.
Disse tudo o que queria, sem medo de acabar de vez comigo.
As letras começavam no espelho e atravessavam as paredes e chão e teto e aquele ódio todo colocado ali e me obrigando a ler palavra por palavra, letra por letra, me deixava claro que ela tinha me deixado.
Que agora eu já não estava sozinho, eu estava abandonado. É muito pior estar abandonado.

Sentei no vaso e fiquei estático, paralisado, derramando lágrimas e olhando pro azulejo azul claro todo rabiscado e bem na minha frente eu lia com clareza alguns daqueles golpes verbais.
"... e do seu lado eu não consigo mais sorrir, eu te odeio..."
" Você nunca me fez bem."

Liguei o chuveiro e fiquei sentando, pelado, misturando a água quente com minhas lágrimas frias até a fonte secar.

sábado, 17 de março de 2012

Quarta Feira

Uma vez eu vi num filme uma mulher dizendo que queria receber flores do seu namorado numa quarta feira só por ser quarta feira, que ele não precisasse de motivos especiais e datas comemorativas para surpreendê-la.
Então me dei conta de que a verdadeira surpresa mora em pequenas atitudes, e momentos inesperados e ações do coração.
É uma questão de ouvir.
Escutar é uma e talvez a mais importante ação do ser humano.

Quero abraços e beijos como se fossem flores só porque é quarta feira.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

desastre


Eu escrevo isso pra você que chora sentada na porta de casa, segurando o celular e não acreditando no que ouviu.

Você que levantou pensando no encontro que teria a noite e na roupa que iria vestir.

Você que ensaiou as palavras pra não dizer nenhuma bobagem.

Eu escrevo tudo isso pra você que economizou as últimas gotas do seu melhor perfume para o dia de hoje.

Pra você que separou os sapatos na semana passada.

Pra você que compôs mentalmente uma trilha sonora para o grande momento.

Você que escondeu as revistas dos cantores sertanejos contando que ele viesse a sua casa.

Você que sentiu em um dia pelo menos, a tal da felicidade.

Você que enxergou um Coelho na Lua.

Escrevo pra você que soluça e derrama lágrimas no vestido de flor.

Pra você que tem a maquiagem borrada e não tem coragem de dizer isso a ninguém.

Você que não tem força para se colocar em pé.

Escrevo isso pra você, que ainda ama, mas não é mais correspondida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quase Zoo

Parado num posto de gasolina jogando conversa fora com um grande amigo, eu vi você passar, linda, e gritei seu nome, na verdade eu não consegui gritar o seu nome, então eu gritei outro nome, mas você também veio e diferente do que pensava que aconteceria eu não tinha mais controle, eu não conseguia agir normalmente, eu estava enfeitiçado pela sua presença, só isso já bastava, não era necessário nada além disso, bastava você estar ali.

Foi então que decidimos sair para ver o animal. Observa-lo. Afinal todos falam tanto que tínhamos que ver aquela figura em nossa frente. E saímos, e conversamos e rimos até entrarmos no ambiente dele.

Então sentamos, nós dois e uma porção de pessoas a espera de um macaco, e a medida em que foi escurecendo o macaco já não me interessava mais, e tudo foi ganhando muitas possibilidades na minha cabeça até que em um determinado momento, com o macaco em nossa frente, nós criamos a nossa própria dramaturgia com as mãos que se atraiam feito um imã, e daquele toque delicado eu fui acariciando sua pele macia e percebendo que isso pra mim era vital.

Depois como num conto de fadas as coisas tiveram que perder sua magia, tivemos que desgrudar nossas mãos, o macaco deixou de ser macaco e tivemos que fingir que nada aconteceu, tivemos que ignorar essa história de amor que aconteceu através das nossas mãos.

Mas é impressionante como os abraços ainda são os abraços, os sorrisos ainda são os sorrisos, o toque ainda é o toque... Mas ainda falta o beijo, a entrega e a decisão.

A importância daquilo tudo não foi só pra mim. eu tenho certeza.

Foi tudo mais ou menos ASSIM.

Todas essas músicas de amor, agora eu finalmente entendi.