segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sobre Elias


E quando tudo parecia normal ele decidiu olhar pra trás. Se deparou com um passado imenso.

Se deparou com uma gravatinha de cartolina confeccionada por ele aos 7 anos de idade, como presente de Dia dos Pais, com os dizeres: “Apesar de tudo, Eu te amo. Elias”

Se deparou com o antigo ferro de passar e com as chicotadas recebidas com o fio e a tomada de 3 pontas.
Se deparou com o estojo de maquiagem de sua mãe e com todas as vezes que cruzou o olhar com ela através do espelho enquanto ela escondia os vergões no canto da face e no braço esquerdo, o favorito dele.

Se deparou com os silêncios durante os jantares em família e as caras de nojo que vez ou outra ele fazia pra comida preparada por ela.

Se deparou também com o antigo chinelo “Rider” e marcas nas costas e  atrás do pescoço deixadas por ele toda vez que que brigava na escola e apanhava dos outros. Era a surra sobre a surra, a pancada sobre a pancada. Se lembrou de que apanhar duas vezes era pior que uma só.
Então, se lembrou de quando aprendeu a bater, de quando aprendeu a usar sua força sem motivos. Só pra não levar duas vezes.

De quando passou a ser temido na escola por todos os garotos e que as garotas também começaram a se afastar.

Começou a se confundir com isso tudo, pois não queria seguir os passos do velho, apesar de ter pegado gosto pelo cigarro e pela cachaça.

Lembrou dos ruídos vindos do quarto ao lado.

De como gostava de perceber os corpos femininos e de como as formas o excitavam, as curvas nos corpos e o volume dos seios foram o estimulo para muitas masturbações e desejos na hora de dormir.

Lembrou dos beijos e carícias trocadas com Elisa e da promessa do encontro na cidade grande.

Lembrou de planos que fez para fugir dali com seu grande amigo Levi, na sombra de um pé de limão e na mesma hora uma lágrima correu pelo seu rosto, caindo no chão de terra batida e escorrendo para o Centro da Terra. 

Nessa hora sentiu seu calcanhar ser invadido por uma luz quente e no momento em que essa luz, atravessando seu corpo, tocou seu coração ele caiu sobre a terra de joelhos, chorando muito.

Levou suas mãos ao peito e se deu conta de que tinha pouco tempo de vida, pois estava no dia de seus anos.

Estava fazendo cinquenta.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

médico

Alguém, por favor chame um médico!

Um médico de coração. É que eu estou doente.

Rápido, um médico aqui!

Tem que entender de coração, um especialista se possível.
Alguém que saiba cuidar bem do coração. Do meu coração.

Eu não quero um cardiologista, eles não entendem nada! Eu quero um médico que cure dor e não doença.

Mas tem que ser rápido! Eu não sei se eu vou aguentar....

As vezes a dor dói mais que doença. Tem doença que nem dói.
Mas meu coração dói muito.

Rápido! Se mexe, faz alguma coisa... Chama logo!
Disca o número. O número certo... só tem um!

Não demora... ele tá fraco...

Não sei se eu consigo explicar os sintomas...

Isso que eu sinto é agudo, é uma dor que toma o corpo e a mente... mas ela começa no coração.

Agora eu entendo quando dizem que o coração é o centro da vida.

Eu tô sem centro... eu tô sem vida.

Um médico de coração aqui!! Pelo amor de Deus!

Eu tô com o coração na mão. pulsando. Preciso engolir ele de novo e deixar ele no peito. Alimentando meu corpo.

 É difícil respirar sem coração. eu não consigo... mas....preciso.... esperar.

Só cuidando dele mesmo pra sarar. recuperar.

O coração não se regenera sabia?
eu aprendi isso, não igual estrela do mar. Não nasce outra parte no lugar, ele tem que ser cuidado.

 Já tá vindo??

Que bom, porque eu sinto... e ainda pulsa.





sexta-feira, 14 de junho de 2013

encaixe


Onde é que eu me encaixo?

Eu não sou como os outros amigos que se animam de ir na passeata. Que tem um impeto de estar lá compondo aquele enorme coro. Isso não está em mim, e não é uma questão de ser contra, ou de analfabetismo politico, não, é uma questão real e particular, ISSO NÃO ESTÁ EM MIM. 
Eu podia ir até lá e mostrar minha opinião pedindo a paz e a justiça na rua da consolação. Mas seria mentira comigo mesmo, eu viraria uma fraude. 

Usando um termo conhecido, eu seria “massa de manobra”. Estaria lá só pra me representar enquanto cidadão paulistano.
Mas eu de fato não sinto esse desejo de estar lá.

Aí eu me pergunto se é uma questão de desejo ou de necessidade, e a realidade é que a resposta eu não sei… Não sei mesmo. 

Eu não teria que me sentir motivado a estar lá no meio, pra estar lá no meio?

Ou eu tenho que parar de olhar pra mim e olhar pra cidade e dar voz a tudo isso?
Onde entra a minha individualidade nisso? Eu não sei a resposta.
Eu não consigo pensar.

Sou contra essa polícia militar nojenta, que está enraizada nos tempos da ditadura, sou contra as bombas, contra os tiros.
Sobre isso não me resta dúvida.
Sou também contra o aumento da passagem, mas isso aqui não está mais em jogo está? É por isso que se grita, pelos 20? não. Tenho certeza que não.

Acho que a juventude agora entendeu o seu papel, saiu do plano virtual, das redes sociais e foi… não foi a luta, foi a paz… saindo de suas casas e ocupando as ruas. Disso eu sou a favor.

Mas continuo em casa. Por que?

?

Mas veja só, apesar de ser contra e ter vergonha da polícia militar, eu preferi escrever esse texto, eu preferi atirar palavras contra o papel e mesmo insone organizar o que eu sinto agora, porque isso eu nunca senti, esse incômodo por não saber onde me encaixar.

Eu sou artista, isso eu já sou, não dá pra não ser… aí fica uma cobrança de que sendo um artista eu devia estar na rua pedindo essa justiça, mas sendo artista também eu não posso encontrar uma maneira artística de me expressar e dar voz a minha experiência, com algo que de fato me represente?
Entendo que esse ato de ocupação das avenidas e ruas da cidade diz muito do teatro, é um grande ato, e fazer parte dele fisicamente me daria outra dimensão da coisa. Mas a questão tem que passar por mim, pela minha experiência.

Porque a minha experiência não está ligada a isso. Não está ligada a protestos, a revoltas, a movimentos políticos, a greves, não, a minha não.

A minha experiência está ligada a família, a risadas com amigos, torcer pelo São Paulo, conversas sobre o dia, idas ao cinema... Está ligada a um homem e uma mulher que nada se interessavam por isso e começaram a namorar, enquanto no país a ditadura estava pegando… 

O namoro corria normalmente, e a ditadura também… Mas ao que sei, em mundo paralelos.
O namoro evoluiu, a ditadura também.
Desse casamento, eu vim. e da ditadura, veio 13 de junho de 2013.

O teatro é a minha rua. 
e é de lá que eu falo, que eu brigo, que eu apoio.

domingo, 16 de dezembro de 2012

na mão

Oi. Eu disse.
Oi. Ela respondeu.
fizemos silêncio.

é bom fazer silêncio junto com você. Eu disse.
Ela sorriu.
Eu sorri.
                                                                          Continuamos em  silêncio.

Eu peguei na mão dela.

Você gosta de entrelaçar os dedos das mãos? eu perguntei.

Eu gosto. Ela disse.

Eu gosto de medir a palma da mão. Ela disse.

Eu gosto de colocar a mão pra fora da janela do carro na estrada. Eu disse.

Eu gosto de olhar a luz do sol atravessar os dedos bem abertos da mão. Ela disse.

Eu gosto de passar um pouco de cola na mão, esperar secar e depois ir tirando devagarinho. Eu disse.

Eu gosto de passar a mão sobre texturas diferentes. Ela disse.

Eu gosto da sua mão. Ela disse.

Eu sorri e entrelacei os dedos com ela.

Fizemos silêncio.


Você quer um sorvete?  Eu perguntei.
Ela sorriu.


                                                       





sábado, 27 de outubro de 2012

Não pensa que é pra você

Mas eu te amo

um tanto, que é maior que a árvore mais antiga e de um jeito mais bonito que aquela canção do Roberto.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

memória


Outro dia eu tomei coragem e abri algumas gavetas e caixas antigas.
Eu subi numa cadeira e afastei as outras coisas da frente para travar contato com aquele material  há muito tempo esquecido. Peguei de lá uma caixa com uma estampa floral, provavelmente herdada de minha mãe e ajeitei sobre a cama.

Durante alguns instantes eu não me senti mais corajoso, e sim frágil, como se aquilo tudo pudesse transformar o meu momento presente.

Então eu observei a caixa, passei a mão de leve sobre o papelão, e percebi pequenas dobras nos cantos da caixa. As flores em tom bege, envelheciam ainda mais minhas lembranças encaixotadas.

Eu já não precisava mais abri-la, porque as histórias começaram a vir em minha mente através do tato. Minhas mãos agora me contavam histórias, histórias muito bonitas, engraçadas e muitas tristes também, tudo aparecia na pele.

Eu decidi levantar a tampa e me deparei com um antigo envelope, branco, escrito meu nome, com uma letra que já foi minha, bem na frente. A tinta preta da caneta não dava bola ao tempo e continuava lá, firme, me convidando, ou melhor, me obrigando a abrir aquele envelope.

Eu o tomei nas mãos e abri.

Entre recados de amigos adolescentes, embalagens de produtos simples e pequenos apetrechos como uma pedra sorrindo, um jornal com a manchete do meu time de coração e um pequeno carrinho vermelho de brinquedo, eu encontrei uma foto da pessoa que eu esqueci ter amado.
Daquele que não me fugia da cabeça, mas que agora eu lutava para lembrar seu nome.

Uma garota jovem de aproximadamente 12 anos, estava em minha frente, bastante amassada, pois, apesar da mente não se lembrar de pouco, o coração e minhas mãos se lembravam de muito.
Muitas foram as noites em que dormi abraçado aquela foto, trazendo aquele sorriso de encontro ao peito.

Me lembrei de ainda menino, tentar esconder de minha irmã aquela poesia fotográfica, e ela sem o menor tino pra irmã mais velha me expor pra toda a família no almoço de domingo.
Ainda assim , eu recuperei a foto, e fazia disso meu amuleto, e passei a colocá-la na gaveta de camisetas, embaixo de tudo, para que todo dia de manhã antes de vestir-me, eu pudesse fazer minha adoração naquele santuário improvisado.

Acho que a burra da maturidade começou a chegar junto com a pressa e eu parei de venerar aquela foto, comecei a perde-la.

Eu não me lembro do dia exato em que aquela foto já não me pertencia mais.

 Em que momento as lembranças deixaram de fazer parte?

Tudo se transformou daquele dia em diante. Daquele dia em que não sei a data, tudo foi diferente, eu abri lugar para novas fotos, novas adorações, mas essa foto, a primeira ainda restava lá.

Eu, quase me sentindo envergonhado, talvez pela última vez, fechei meus olhos e apertei aquele sorriso outra vez contra meu peito.  A felicidade foi imensa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Carta

Jéssica,
você ainda não sabe muito bem quem sou eu... Na verdade, você nem sabe que eu existo, o que por um lado é bom, porque eu posso mostrar o melhor de mim pra você, eu posso me conhecer melhor e ficar guardando um monte de coisas legais pra quando você chegar, por outro é ruim, porque é uma espera longa... sabe aqueles momentos que você fica andando de um lado pro outro e não sabe o que fazer com as mãos? É isso, só que por dentro!

Desde que fiquei sabendo que você viria, eu tenho pensado muito em você, e pensado no que vamos fazer juntos, onde posso te levar, o que posso te apresentar, e mesmo você tendo avisado com quase 9 meses de antecedência que viria, o tempo parece curto pra arrumar tudo, talvez porque a busca seja pela perfeição... Mas eu aposto uma pizza com você que você nem vai ligar pra isso tudo, a gente é que é besta... Adultos são assim, então aprenda logo, ou melhor nos ensine logo!
É claro que você vai gostar de tudo o que te espera, (aposto outra pizza com isso), porque tem uma mulher, que eu chamo de Nath, Nathalia, Na, mas você vai chamar de outra coisa... ela é bem da caprichosa sabe, cuida de tudo... e junto com ela tem o Gu, que eu chamo de vários apelidos e nome diferentes também, mas que provavelmente não servirão pra você...esse também tem um coração enorme e juntos eles vão cuidar tanto de você, que será impossível não gostar!

Você vai entender todas essas coisas muito antes de aprender a ler todas essas palavras, mas escrevendo a gente tenta registrar a emoção do momento, escolhendo as melhores palavras e tentando com isso congelar as sensações.

Hoje tive uma sensação muito boa, descobri que eu vou ser seu padrinho, é isso mesmo, PA-DRI-NHO.

Pra você entender melhor:

Padrinho é o cara legal, aquele que leva a gente pra lugares divertidos, que conta histórias legais, que ensina um monte de coisa pra gente e ainda paga um sorvete de duas bolas com cobertura!

Pois é, eu sou esse cara agora!

Até já!
Um beijo.
V.

sábado, 4 de agosto de 2012

O abraço do homem entregue

Um homem que beirava os 30 anos, o típico homem COMUM, se é que se pode definir alguém assim... Mas falo um pouco da forma, nem muito magro, nem gordo, com a barba por fazer, calça jeans surrada, a velha camiseta branca com a gola já não tão em forma... Ele sai de seu apartamento no centro da cidade a procura da vida.
A vida que ele queimou, que ele não viu acontecer. Não por ser obrigado a nada, ou estar preocupado demais com obrigações, simplesmente por não ter feito nada.

Na noite que antecede a saída do homem do apartamento, ele sonha com a possibilidade de encontrar alguém, seja esse alguém um amigo, uma namorada, uma futura esposa ou até um filho perdido por aí, que agora irá transformá-lo em outro.
Esse alguém não diz palavras, ou frases ou qualquer comunicação verbal, eles se entendem em outro nível, eles se conectam pelo olhar e passam a saber tudo um do outro, ao passo que seus movimentos passam a se parecer e o homem já não se sente mais só, ele agora é multiplicado pela companhia de um outro.

Esse homem multiplicado ganha uma nova visão, uma nova lei. Ele não obedece mais aquela velha rotina que esgotava seus músculos de tanto repetir movimentos sem a possibilidade de evoluir.
Ele agora sente os aromas da cidade em que vive, ele percebe em seu corpo uma energia jamais percebida antes que o permite caminhar pelas ruas com a cabeça erguida.
Esse novo homem agora ganha forças para se interessar por alguém, ele agora ama pessoas pelas ruas da cidade, ele ama pessoas que entregam pizza, ele ama pessoas que encontra no elevador, ele ama pessoas que varrem as ruas e ama pessoas que seguram portas de elevadores quando o avistam chegando.
Ele ama loiras altas com silicone nos seios e a bunda dura de tanto frequentar a academia, ele ama homens de terno preto falando ao celular enquanto caminham apressados, ele ama crianças com o nariz escorrendo que seguram a barra da saia da mãe implorando por colo.

Ele com esse amor maior que seu corpo sai pela rua e passa a abraçar pessoas, a todas elas, ele abraça sem interesse sexual ou de qualquer outra espécie, ele abraça, ele tem que abraçar para expressar esse amor...

Ele então abraça um homem que se prepara para o salto definitivo, o salto a busca da morte, no metrô, no horário de pico, no caos da cidade, ele abraça o homem.
O homem retribui o abraço sem se preocupar de onde vem aquilo, ele abraça de volta e chora e amolece o corpo. Ninguém repara nos dois.
O dois homens ali, abraçados transformam suas vidas.
Um diz obrigado, o outro esboça um sorriso ainda com lágrimas nos olhos.
 Caminham em direções opostas.
Ele acorda.


domingo, 17 de junho de 2012

Espelho


Uma canção muito especial que me toca muito por toda a beleza da homenagem...

terça-feira, 5 de junho de 2012

De quem sou eu

Lembrando de mim eu percebi que talvez eu seja especial.
Que talvez eu valha a pena.
Eu tinha esquecido de mim, de quem eu era, do meu sabor, do meu desejo, dos meus anseios.

Nessa lembrança eu resgatei lá de dentro um garotinho desse tamaniquinho de cabelo encaracolado, que sonhava com tudo e que podia tudo, porque não sabia de nada, ou talvez de tudo.
Eu lembrei que eu posso ser o que eu quiser, fazer o que eu quiser e morar no mundo que eu quiser.

Com um sorriso confiante de criança, que as vezes ainda surge no meu rosto, eu sinto que isso está em mim, e usando as palavras de um sábio malandro da música brasileira como inspiração eu canto: " eu sou assim, quem quiser gostar de mim.... eu sou assim"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

de manhã

Acordei e já não era tão cedo, com a claridade que entrava pela janela diretamente no meu rosto. Virei pro lado e estava sozinho na cama enorme banhada com o edredom vermelho. Meu cabelo amassado e meus olhos entre abertos pareciam não entender como podia estar sozinho.
Esperei um pouco fingindo estar dormindo torcendo pra que ela voltasse do banheiro. Nada.
Fiquei ainda esperando e inventando um café da manhã ou alguma desculpa pra estar sozinho.
Mas nada aconteceu.
Comecei a me sufocar na cama.
Então, me sentindo bem estranho, fui até o banheiro e quando senti o piso frio com meus pés ainda quentes, me deparei com as marcas de batom escritas por ela em toda a extensão do meu banheiro.
Ela não teve dó.
Disse tudo o que queria, sem medo de acabar de vez comigo.
As letras começavam no espelho e atravessavam as paredes e chão e teto e aquele ódio todo colocado ali e me obrigando a ler palavra por palavra, letra por letra, me deixava claro que ela tinha me deixado.
Que agora eu já não estava sozinho, eu estava abandonado. É muito pior estar abandonado.

Sentei no vaso e fiquei estático, paralisado, derramando lágrimas e olhando pro azulejo azul claro todo rabiscado e bem na minha frente eu lia com clareza alguns daqueles golpes verbais.
"... e do seu lado eu não consigo mais sorrir, eu te odeio..."
" Você nunca me fez bem."

Liguei o chuveiro e fiquei sentando, pelado, misturando a água quente com minhas lágrimas frias até a fonte secar.

sábado, 17 de março de 2012

Quarta Feira

Uma vez eu vi num filme uma mulher dizendo que queria receber flores do seu namorado numa quarta feira só por ser quarta feira, que ele não precisasse de motivos especiais e datas comemorativas para surpreendê-la.
Então me dei conta de que a verdadeira surpresa mora em pequenas atitudes, e momentos inesperados e ações do coração.
É uma questão de ouvir.
Escutar é uma e talvez a mais importante ação do ser humano.

Quero abraços e beijos como se fossem flores só porque é quarta feira.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

desastre


Eu escrevo isso pra você que chora sentada na porta de casa, segurando o celular e não acreditando no que ouviu.

Você que levantou pensando no encontro que teria a noite e na roupa que iria vestir.

Você que ensaiou as palavras pra não dizer nenhuma bobagem.

Eu escrevo tudo isso pra você que economizou as últimas gotas do seu melhor perfume para o dia de hoje.

Pra você que separou os sapatos na semana passada.

Pra você que compôs mentalmente uma trilha sonora para o grande momento.

Você que escondeu as revistas dos cantores sertanejos contando que ele viesse a sua casa.

Você que sentiu em um dia pelo menos, a tal da felicidade.

Você que enxergou um Coelho na Lua.

Escrevo pra você que soluça e derrama lágrimas no vestido de flor.

Pra você que tem a maquiagem borrada e não tem coragem de dizer isso a ninguém.

Você que não tem força para se colocar em pé.

Escrevo isso pra você, que ainda ama, mas não é mais correspondida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quase Zoo

Parado num posto de gasolina jogando conversa fora com um grande amigo, eu vi você passar, linda, e gritei seu nome, na verdade eu não consegui gritar o seu nome, então eu gritei outro nome, mas você também veio e diferente do que pensava que aconteceria eu não tinha mais controle, eu não conseguia agir normalmente, eu estava enfeitiçado pela sua presença, só isso já bastava, não era necessário nada além disso, bastava você estar ali.

Foi então que decidimos sair para ver o animal. Observa-lo. Afinal todos falam tanto que tínhamos que ver aquela figura em nossa frente. E saímos, e conversamos e rimos até entrarmos no ambiente dele.

Então sentamos, nós dois e uma porção de pessoas a espera de um macaco, e a medida em que foi escurecendo o macaco já não me interessava mais, e tudo foi ganhando muitas possibilidades na minha cabeça até que em um determinado momento, com o macaco em nossa frente, nós criamos a nossa própria dramaturgia com as mãos que se atraiam feito um imã, e daquele toque delicado eu fui acariciando sua pele macia e percebendo que isso pra mim era vital.

Depois como num conto de fadas as coisas tiveram que perder sua magia, tivemos que desgrudar nossas mãos, o macaco deixou de ser macaco e tivemos que fingir que nada aconteceu, tivemos que ignorar essa história de amor que aconteceu através das nossas mãos.

Mas é impressionante como os abraços ainda são os abraços, os sorrisos ainda são os sorrisos, o toque ainda é o toque... Mas ainda falta o beijo, a entrega e a decisão.

A importância daquilo tudo não foi só pra mim. eu tenho certeza.

Foi tudo mais ou menos ASSIM.

Todas essas músicas de amor, agora eu finalmente entendi.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Distância

Essa distância entre nós não nos aproxima, ela só nos afasta mais, ela faz você ficar longe e dá muito tempo pra você pensar.
Não que eu queira algo impulsivo, mas eu acho que você quer o mesmo que eu, por isso não entendo a demora, não entendo porque devemos ficar assim, distantes.
Se a demora é pelo medo, não precisa ter medo, eu estou abrindo a porta e o meu coração está vazio esperando você entrar.

Ia ser tão saboroso deitar e dormir do seu lado, e conversar com você sobre tudo, e ouvir as coisas que você anda fazendo, e assistir filmes juntos, e tomar sorvete, e viajar, viajar muito e fazer planos.
Eu quero isso pra mim, pra nós, isso é uma daquelas coisas que o coração pede e a gente tem que atender porque se não ele dói, chora e fica escorrendo lágrimas.

sábado, 22 de outubro de 2011

A Chapeuzinho Vermelho

Outro dia uma sensação muito viva tomou conta de mim, uma recordação.
Mas não estou falando de uma simples e falha lembrança, dessas que passam, eu estou falando dessas que ficam.

Nesse caso foi diferente, eu senti exatamente o que sentia quando acontecia, eu vivenciei novamente seu colo, mãe.
Eu estava lá, ou era como se estivesse lá deitado na cama do beliche de baixo do lado esquerdo do primeiro quarto do sítio.
Você, minha mãe, depois de me acompanhar na escovação dos dentes ia até lá comigo e me contava histórias diversas, e sabia como fazer, as pausas, os silêncios, você era todos aqueles personagens e eu nem sabia. Você me envolvia naquelas palavras de livros infantis e eu embarcava deitado naquela aventura até dormir sobre os lençóis brancos com letras grandes e coloridas estampadas, compondo perfeitamente a paisagem.

Tudo tinha um clima, um cheiro, uma vontade, uma expressão em si mesmo e reverberam em mim.

Daí eu cresci e tento me transformar num grande contador de histórias, tento dar vida a muitos personagens e para isso empresto meu corpo e minha alma a esse ofício, tudo isso para um dia provocar em alguém, ou em muitos desses "alguéns" aquela mesma sensação do beliche de anos atrás.

Aquelas histórias todas fora eternizadas em mim, naquelas madeiras envernizadas da cama, no grande armário de tom claro, e nas janelas azuis.

Eu preciso encontrar o espaço onde vou criar raízes.

Obrigado mãe, por tanta vida.

domingo, 2 de outubro de 2011

Sabendo da chuva na noite escura me ponho a caminhar na avenida mais famosa da cidade e cruzo olhares com desconhecidos e imagino as milhares de histórias que podem ser contadas por eles, que eu nunca vou conseguir ouvir, diariamente eu vejo pessoas e faço um julgamento mental que não dura mais de 8 segundos, mas hoje foi diferente.

Eu escrevia na mente histórias para esses personagens anônimos, enquanto eles talvez nem reparassem minha presença. Eu criei histórias de amor para muitos deles, criei assassinatos, vidas sem graça, traições, brigas... Eu inventava seus dramas e ia lapidando suas vidas apenas pelo rosto, ia determinando quem eram através do "meu" passado imaginário.

E nessa brincadeira de criar histórias para os outros me percebi criando a minha própria, e eu não estava apagando o que já havia sido escrito, na hora de fazer a minha, e virei a página e comecei um novo capítulo. Ainda não o batizei... e foi engraçado como na minha cabeça essa minha trajetória pareceu bastante justa, possível e muito feliz. Eu farei coisas que poucas pessoas fazem, eu irei a lugares que até hoje eu jamais acreditei de verdade que iria, eu conhecerei pessoas ótimas, trabalharei com aquelas pessoas que me estimulam, eu serei escutado por muita gente, eu escutarei muita gente, eu escreverei coisas das mais interessantes... E isso tudo me fez pensar que agora enquanto digito essas palavras eu estou firmando a minha trajetória e que só depende de mim fazer todas essas coisas... eu acredito...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

saudade...

Eu tô com SAUDADE.


é.
de você.

Sabe quando o coração avisa e só os pensamentos vão buscar?
Sabe quando o corpo chama mas a boca não diz?
Sabe quando o sono não vem?
quando a foto vira lágrima?
quando a alma avôa?
Sabe quando o sorriso perde a força?
quando a cor desbota?

Sabe quando o pássaro não canta?
quando a lua não encanta?


Sabe?
Saudade. é esse o nome.

e é de você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Aquele Abraço

Eu passei por um abraço desses que se trocam as almas, desses que se chega tão perto que o os corações se beijam, mas esse abraço era um abraço sem beijo de coração, um abraço apertado assim como a dor nítida no olhar dela.
Apesar das almas trocadas, o abraço tinha tom de despedida, não de adeus, de até logo mas não se sabe quando.

Um abraço indeciso, com gosto de beijo e cheiro de tchau.

Mas nesse abraço o cheiro era mais forte e eu no final não senti o gosto.
Me descolei daquele corpo, e apesar de me sentir atraído feito um imã, eu não grudei de volta, eu esquivei, repeli.

Despedi.





terça-feira, 7 de junho de 2011

na minha...

e é sempre verdade que no coração sempre mora um 31 de dezembro, que na alma mora um raio de sol, que na pele mora um travesseiro, que na cicatriz mora um poema de Manoel de Barros, que nos pés moram a grama, que no toque mora um voo de passarinho, que no cheiro mora uma canção de vitrola, que na risada mora uma paçoca, que no choro uma barra de chocolate, que num salto mora um infinito, que num banho mora um ídolo, que num abraço mora uma vó cantando, que numa respiração mora uma cachoeira, que nas costas mora um futuro, que no peito mora uma ratoeira, que na brincadeira mora um lambida de cachorro, que no sangue mora uma cama elástica, que no sonho mora um super herói e que na palavra mora uma verdade.